Escola pública de Corumbá usa inteligência artificial para proteger o Pantanal de incêndios e atropelamentos de animais

Escola pública de Corumbá usa inteligência artificial para proteger o Pantanal de incêndios

Projeto criado por alunos da Escola Dom Bosco chegou à semifinal nacional do Solve for Tomorrow e mostra inovação tecnológica dentro do bioma

No meio do Pantanal, uma escola pública estadual de Corumbá está formando jovens programadores e mostrando que inovação tecnológica também floresce longe dos grandes centros urbanos. A Escola Estadual Dom Bosco se consolidou como um dos principais polos de ciência e tecnologia de Mato Grosso do Sul depois de inaugurar o Espaço Maker “Pe. Didimo de Campos Filho” e receber a Carreta Escola do Senac, equipada com notebooks e ferramentas tecnológicas.

Entre os projetos desenvolvidos pelos estudantes, um sistema batizado de SAVIA, que utiliza sensores e inteligência artificial para ajudar a prevenir incêndios florestais e atropelamentos de animais silvestres, chamou atenção a ponto de chegar à semifinal de um programa nacional de inovação. A pergunta que fica é simples: como uma escola pública no interior do Pantanal conseguiu desenvolver algo com esse alcance?

Como nasceu o projeto SAVIA e o que ele faz pelo Pantanal

O SAVIA, sigla para Sistema de Alerta e Vigilância Inteligente Ambiental, foi criado por estudantes do Ensino Médio Integrado ao curso técnico em Informática para Internet da Dom Bosco. Utilizando sensores, automação e inteligência artificial, o sistema foi pensado para enfrentar dois dos principais desafios ambientais da região pantaneira: o atropelamento de animais silvestres nas estradas e a detecção precoce de incêndios florestais.

A proposta nasceu de um problema concreto e visível para quem vive no Pantanal, onde queimadas e acidentes com a fauna local são preocupações recorrentes durante boa parte do ano, especialmente nos períodos mais secos. A ideia foi transformar tecnologia em uma ferramenta prática de preservação ambiental, aproximando conhecimento técnico e necessidades reais da comunidade.

A relevância do projeto ultrapassou os limites da sala de aula. O SAVIA alcançou a semifinal do programa Solve for Tomorrow Brasil, uma das principais competições de inovação voltadas a estudantes do ensino básico no país, e também foi contemplado pelo Programa de Iniciação Científica e Tecnológica, ligado à Fundação de Apoio ao Desenvolvimento do Ensino, Ciência e Tecnologia de Mato Grosso do Sul.

O desenvolvimento do sistema contou com a orientação dos professores Felipe de Oliveira e Bruno Silva, além do diretor-adjunto Elvécio Zequeto, responsáveis por acompanhar de perto os estudantes durante as etapas de criação, testes e ajustes da tecnologia aplicada à proteção ambiental.

Espaço Maker e Carreta do Senac ampliam o acesso à tecnologia

A estrutura que sustenta iniciativas como o SAVIA ganhou um reforço importante com a inauguração do Espaço Maker, batizado em homenagem ao Padre Didimo de Campos Filho. O ambiente foi planejado para integrar ciência, tecnologia, engenharia e matemática, reunindo atividades de robótica, programação, eletrônica, automação e inteligência artificial em um único espaço dentro da escola.

A chegada da Carreta Escola do Senac, equipada com 18 notebooks, amplia ainda mais o acesso dos estudantes a recursos tecnológicos de última geração, beneficiando diretamente os mais de 1.600 alunos atendidos pela unidade. O investimento fortalece o ensino técnico e cria oportunidades de aprendizado que antes estavam concentradas em grandes centros urbanos.

Atualmente, mais de 30 estudantes participam do Clube de Robótica da Dom Bosco, desenvolvendo projetos e se preparando para competições como a Olimpíada Brasileira de Robótica. O espaço também conta com kits de robótica voltados à inclusão, destinados a estudantes do público-alvo da educação especial, ampliando o alcance da iniciativa para além de um grupo restrito de alunos.

Para o diretor da escola, Fernando Cruz, a chegada dessas estruturas representa a materialização de um compromisso coletivo, permitindo que os estudantes de Corumbá encontrem o futuro dentro da própria unidade, sem precisar buscar oportunidades em outros lugares.

O que essa iniciativa representa para o ecossistema de inovação do Pantanal

O trabalho desenvolvido na Dom Bosco não está isolado. Ele se conecta a um movimento mais amplo de fomento à inovação na região, encabeçado por iniciativas como o Pantanal Tech MS, promovido pela Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul em parceria com o governo do estado e o Sebrae.

O programa reúne vitrines tecnológicas, expedições científicas e o Desafio Pantanal Tech, voltado a pesquisadores, estudantes e empreendedores que desenvolvem soluções para agronegócio, bioeconomia e transição energética. Esse contexto ajuda a explicar por que um projeto nascido dentro de uma escola pública de Corumbá conseguiu repercussão além das fronteiras do município, encontrando espaço em uma rede já estruturada de apoio à ciência e tecnologia no estado.

Para os estudantes envolvidos, a experiência abre portas que vão muito além do reconhecimento em uma competição nacional. Projetos como o SAVIA mostram, na prática, como tecnologia e preservação ambiental podem caminhar juntas, aplicando conceitos de programação e automação a um problema real e urgente da região onde vivem.

Esse tipo de iniciativa também fortalece a ideia de que startups e soluções de impacto, as chamadas deep techs, podem nascer dentro do ambiente escolar, antecipando vocações profissionais e aproximando jovens do Pantanal de carreiras em tecnologia que antes pareciam distantes da realidade do interior.

A trajetória da Escola Estadual Dom Bosco mostra que tecnologia e proteção ambiental podem caminhar juntas mesmo a quilômetros de distância dos grandes polos de inovação do país. Com o Espaço Maker funcionando, a Carreta do Senac ampliando o acesso a equipamentos e projetos como o SAVIA ganhando visibilidade nacional, a escola se transforma em referência para outras unidades públicas da região. A expectativa agora é que essa repercussão atraia novas parcerias e recursos, permitindo que mais estudantes do Pantanal tenham a chance de transformar problemas do cotidiano em soluções tecnológicas com impacto real para suas comunidades.

Fontes consultadas:

Autor: Diego Rodríguez Velázquez

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