O regime hídrico foi determinante para o desempenho das lavouras de trigo no Centro-Oeste entre o fim de agosto e o início de setembro de 2026. Em Goiás, as áreas irrigadas apresentaram desenvolvimento mais favorável e avançaram para a fase de pré-colheita. Em Mato Grosso do Sul, a restrição de água ao longo do ciclo e a incidência de brusone reduziram o potencial produtivo dos cultivos conduzidos em sequeiro.
As condições foram descritas em análise publicada em 3 de setembro pelo Instituto Nacional de Meteorologia (INMET). O levantamento compara o comportamento da cultura em diferentes localidades e mostra como a disponibilidade de água pode alterar o desenvolvimento do trigo no Cerrado, especialmente quando a produção depende exclusivamente das chuvas.
Irrigação reduz o impacto da irregularidade das chuvas
Em Goiás, o melhor desempenho foi observado nas lavouras irrigadas. A oferta controlada de água contribuiu para a evolução da cultura até a etapa de pré-colheita, mesmo em um cenário de precipitações abaixo da demanda estimada para o ciclo. O resultado reforça a função da irrigação como ferramenta de redução do risco climático, embora não elimine a necessidade de planejamento e manejo adequados.
Uma simulação apresentada pelo INMET para Cristalina, no leste goiano, ajuda a dimensionar a diferença entre a água disponível e a necessidade da cultura. Durante o período analisado, o trigo recebeu 69,2 milímetros de chuva, enquanto a demanda hídrica estimada chegou a 575,8 milímetros. A distância entre os dois valores evidencia a dependência de fontes complementares de água em sistemas irrigados.
Esse tipo de comparação não significa que todas as propriedades tenham enfrentado exatamente o mesmo resultado. O próprio instituto ressalta que as simulações dependem do manejo adotado e não representam necessariamente as perdas comerciais verificadas em cada fazenda. Fatores como época de plantio, variedade utilizada, condições do solo e controle fitossanitário também podem influenciar a resposta da lavoura.
Sequeiro em Mato Grosso do Sul sofreu com déficit hídrico
Em Mato Grosso do Sul, o cenário foi menos favorável para as áreas de trigo cultivadas sem irrigação. A precipitação acumulada ficou abaixo da necessidade estimada da cultura em Ponta Porã, município localizado na faixa sul do estado. A restrição hídrica ao longo do ciclo afetou o desenvolvimento das plantas e trouxe reflexos para o enchimento dos grãos.
Além da falta de água, o INMET identificou a incidência de brusone nas lavouras sul-mato-grossenses. A doença é apontada na análise como um dos fatores que contribuíram para a redução do potencial produtivo. Nesse contexto, a combinação entre o estresse hídrico e o problema fitossanitário aumentou a pressão sobre os cultivos de sequeiro, que não contavam com a mesma capacidade de reposição de água disponível nas áreas irrigadas.
A comparação entre Cristalina e Ponta Porã mostra que o desempenho regional do trigo não pode ser explicado apenas pela localização geográfica. O sistema de produção teve papel central na resposta das lavouras. Enquanto a irrigação ofereceu maior controle sobre o suprimento hídrico em Goiás, a dependência das chuvas ampliou os efeitos da estiagem em parte das áreas de Mato Grosso do Sul.
Monitoramento acompanha culturas de inverno
O quadro faz parte do acompanhamento agrometeorológico das culturas de verão e inverno. Em 25 de setembro de 2026, a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) divulgou o Boletim de Monitoramento dos Cultivos de Verão/Inverno de setembro, publicação que acompanha o desenvolvimento de culturas como trigo, milho, soja e algodão.
O monitoramento de órgãos públicos permite observar a relação entre chuva, disponibilidade de água no solo e evolução das lavouras em diferentes regiões produtoras. Para o trigo, essas informações são especialmente relevantes durante fases como o desenvolvimento vegetativo, o enchimento dos grãos e a preparação para a colheita, quando as condições climáticas podem influenciar o resultado final.
Os dados também ajudam a separar uma tendência regional de uma perda efetivamente registrada em cada propriedade. No caso analisado pelo INMET, as estimativas servem para demonstrar o efeito do regime hídrico sobre a cultura, mas não substituem levantamentos comerciais realizados nas fazendas. A produtividade final depende da interação entre clima, manejo da irrigação, características do solo e ocorrência de doenças.
Assim, o trigo no Centro-Oeste encerrou o período com resultados distintos. Goiás apresentou avanço das áreas irrigadas em direção à pré-colheita, enquanto Mato Grosso do Sul enfrentou limitações em lavouras de sequeiro, associadas à seca e à brusone. A diferença entre os dois estados evidencia como a gestão da água e o acompanhamento das condições agrometeorológicas podem influenciar a produção de trigo no Cerrado.
